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Filme rondoniense ultrapassa 100 seleções em festivais pelo mundo

Data da notícia: 2026-07-12 08:28:25
Foto: zenital.company
Produzida em Rondônia, a animação “Planeta Fome” transforma a fome e a desigualdade social em uma distopia ambientada na Porto Velho de 2125

Produzido em Porto Velho, o curta-metragem consolida-se como uma das obras recentes de maior circulação internacional do audiovisual de Rondônia e amplia a presença do cinema amazônico em importantes vitrines cinematográficas.
Inspirado nas imagens da chamada “fila dos ossos”, que ganharam repercussão durante a pandemia da Covid-19, o filme parte de uma situação real para imaginar um futuro em que a fome deixa de ser apenas uma consequência da desigualdade e se transforma em instrumento de controle social.
A história se passa em 2125, em uma Porto Velho árida, sem árvore e sem cor. Nesse mundo marcado pelo colapso ambiental e econômico, Ivani, uma mulher negra e mãe solo, e seu filho Lucca, de oito anos, tentam sobreviver em uma sociedade que transformou a comida em mercadoria, privilégio e mecanismo de exclusão.
“Quando vi aquelas imagens de pessoas buscando ossos e restos de carne para conseguir alimentar suas famílias, pensei no quanto aquela situação revelava sobre a nossa sociedade. O filme nasceu da necessidade de falar sobre a fome não como uma fatalidade, mas como consequência de escolhas políticas e econômicas”, explica Édier William.

De Porto Velho para festivais internacionais

Entre as principais seleções de Planeta Fome está o Bengaluru International Short Film Festival, na Índia, evento qualificador para o Oscar e considerado uma das principais vitrines de curtas-metragens daquele país.
A animação também integrou o 20º Shorts México, um dos maiores festivais de curtas-metragens da América Latina, e o 51º Festival de Cinema Ibero-Americano de Huelva, na Espanha, tradicional evento dedicado às cinematografias da América Latina, de Portugal e da Espanha.
No Brasil, o curta foi selecionado para o Panorama Brasil da VIII Mostra Sesc de Cinema, circuito que levou a produção a diferentes regiões do país, com exibições em 19 estados. A obra também participou do AnimArt, festival dedicado à animação brasileira, além de mostras e festivais voltados ao cinema socioambiental, aos direitos humanos e à produção independente.
Na Colômbia, Planeta Fome integrou o Festiver – Festival de Cine Verde de Barichara, evento voltado a filmes que abordam questões ambientais e sociais. O percurso internacional inclui ainda exibições em países como Espanha, Itália, Alemanha, Marrocos, China, Canadá, Estados Unidos, Rússia, dentre outros.
Além das seleções, a animação recebeu prêmios e reconhecimentos em categorias como Melhor Filme, Melhor Animação, Melhor Curta Nacional e Melhor Trilha Sonora. A obra também conquistou indicações por roteiro, direção, montagem, direção de arte e cartaz.

Uma narrativa sem diálogos

Com 15 minutos de duração, Planeta Fome não possui diálogos. A história é conduzida pela animação, pela trilha sonora, pelo desenho de som e por uma série de símbolos visuais que permitem que o filme seja compreendido por públicos de diferentes idiomas e culturas.
A estética predominantemente em preto e branco contrasta com os alimentos, apresentados em cores. Na narrativa, a comida torna-se um dos poucos elementos visualmente vivos, reforçando sua condição de desejo, poder e sobrevivência.
A animação é assinada por Luan Ott, enquanto a trilha sonora original foi composta por Tullio Nunes. O projeto foi produzido pela Zenital Produções, tem distribuição da Tarrafa Produtora e é realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, por meio de edital da Fundação Cultural do Município de Porto Velho.
Desde 2025, a circulação nacional e internacional do filme é conduzida pela Tarrafa Produtora e Distribuidora, empresa independente sediada em Recife (PE) e liderada por mulheres negras. Especializada na distribuição de curtas e longas-metragens brasileiros, a Tarrafa atua na construção de estratégias de circulação em festivais, mostras, cineclubes e outros circuitos de exibição, ampliando o alcance de obras independentes em diferentes territórios e mercados.
"A marca de mais de 100 seleções demonstra que Planeta Fome encontrou ressonância em públicos muito diferentes entre si. Embora seja uma obra profundamente conectada à realidade amazônica e brasileira, o filme aborda questões universais, como a fome, a desigualdade e a dignidade humana, o que tem permitido estabelecer diálogos em festivais de diferentes países.
Essa trajetória também evidencia a importância da distribuição como uma etapa estratégica da circulação audiovisual. Cada seleção é resultado de um trabalho de mapeamento e construção de caminhos para que a obra alcance os públicos mais alinhados à sua proposta. Planeta Fome mostra que filmes produzidos fora dos grandes centros podem ocupar espaços de destaque no circuito internacional sem abrir mão de sua identidade territorial, fortalecendo a presença do cinema amazônico e do audiovisual independente brasileiro no mundo."
— Anna Andrade, diretora da Tarrafa Produtora e Distribuidora

A fome como um futuro que já começou

Embora esteja ambientado no século XXII, o filme utiliza o futuro para tratar de problemas presentes. A ausência de árvores, o calor extremo, o desemprego, a concentração dos alimentos e a exclusão das pessoas consideradas improdutivas compõem uma sociedade fictícia, mas construída a partir de situações reconhecíveis no Brasil contemporâneo.
Ao acompanhar uma mãe e uma criança, o curta desloca as estatísticas sobre insegurança alimentar para uma experiência humana. A luta dos personagens não ocorre apenas pela sobrevivência física, mas pela preservação dos vínculos, da dignidade e da capacidade de imaginar outro futuro.
“O filme não pretende prever exatamente como será o ano de 2125. A distopia funciona como um espelho deformado do presente. Quanto mais absurdo aquele futuro parece, mais precisamos observar quais partes dele já começaram a existir”, destaca Luan Ott.

Cinema amazônico em circulação
A marca de mais de 100 seleções também evidencia o papel das políticas públicas no desenvolvimento do audiovisual fora dos grandes centros de produção. O recurso da Lei Paulo Gustavo possibilitou a contratação de profissionais especializados e a execução das diferentes etapas exigidas por uma obra de animação.
Segundo o diretor, os resultados alcançados demonstram que o investimento em cultura permanece produzindo impacto após a conclusão do projeto.
“Uma política pública não financia apenas os minutos que aparecem na tela. Ela gera trabalho, desenvolve profissionais, forma público e permite que um território seja representado nacional e internacionalmente. Cada festival que exibe Planeta Fome também apresenta ao público uma obra produzida em Porto Velho, por artistas que atuam na Amazônia”, afirma Édier William.

Fonte: zenital.company@gmail.com




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