Ji-Paraná, RO, Editora Chefe: Mariana Camata |
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ARTIGOS |
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TUDO A SEU TEMPO Há anos espero pelo momento de levar meus filhos para pescar. Meu pai fazia isso e mal sabia eu que, nestas pescarias, era onde ele plantava e regava no meu peito esse negócio de gostar de natureza. Aliás, é dele a frase lapidar: - Filho, a natureza é a coisa mais linda e mais feia que existe! Nunca encontrei quem descrevesse com tal síntese o paradoxo amor e temor que todos nutrimos pelo mundo natural. Além de duas meninas, uma bióloga e outra jornalista, tenho um menino que faz quatro anos amanhã e outro que já tem cinco. Há um certo tempo, lá atrás, chegou o dia! Varinha de bambu número 2, linha de nylon 0,20, anzol 2, para lambari e seus parentes, chumbada miúda, chapéu de palha, camisa de manga comprida contra mutuca e pernilongo, botinas, embornal de algodão a tira-colo e massa de farinha de trigo como isca. - Minhoca, não, porque a gente somos ecologista – acode o mais velho. De cócoras no barranco, a primeira regra é falar pouco ou não falar. E de posse destas ordens, foi que a conversa entre os dois começou: - Pedo, poique o pexe vem? – perguntou o mais novo. - Ele vem comer a massinha e enrosca a língua no anzol - respondeu Pedo, digo, Pedro. - Sai sangue? - Não. - Então, poique ele morre? - Porque o papai falou que peixe só respira dentro da água. - Ele não tem nariz? - Fica quieto, Miguel! - Não tem nariz? - Não sei! - Não tem nariz? Resolvi intervir: - Tem, filho, mas o narizinho do peixe é só para ele cheirar. - Então, poique ele morre? - Morre porque a gente tira ele da água e ele morre sufocado. O silêncio do mais novo e os olhos marejados do mais velho, ambos olhando para mim, fizeram com que eu me sentisse o mais estúpido vivente sobre a Terra. Em matéria de pescarias, era cedo demais para eles, descobri num estalo. Só a minha ansiedade justificava tal leviandade. Mas, possivelmente, sentindo meu embaraço e em socorro aos meus arrependimentos, foi o Miguel quem quebrou o mal-estar gerado por suas próprias perguntas: - E não pode jogar o pexe no afalto né, pai? [Nota do Tradutor: asfalto]. - Por quê? – perguntei, fincando o cabo da vara no barranco. - Poique ele morre atopelado – franziu o olhar. - Atopelado! Há! há! há! É atropelado, que a gente fala... – caçoou o mais velho, entendendo a conversa pelo lado avesso. O outro, bravo com a brincadeira, enfezou-se e se esqueceu do peixe. De certa forma aliviado, recolhendo a traia, eu também ria: - Entre mortos e feridos... Voltaremos a pescar. Tudo a seu tempo. Por enquanto, feliz aniversário, Miguel! Um forte abraço e até sexta que vem. * Uma das belas fábulas de Esopo, sábio grego que viveu no séc. VI a.C. Luiz Eduardo Cheida é médico, deputado estadual e presidente da Comissão de Ecologia e Meio Ambiente da Assembléia Legislativa do Paraná. Foi prefeito de Londrina, Secretário de Estado do Meio Ambiente, membro titular do CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente) e do Conselho Nacional de Recursos Hídricos. No Fundo de Suas AlmasCosmo Palasio de Moraes Jr. Durante muito anos – muito mais do que anos – durante algumas décadas – nos que sonhamos de verdade com um Brasil onde ao menos crianças não passem fome e idosos não seja esquecidos em filas, acalentamos um sonho. Durante este tempo – tínhamos como convicção de que se lutássemos muito, se falássemos com pessoas e se mais do que isso, se apesar de tudo e todos nos mantivéssemos distantes das questões imorais – estaríamos fazendo algo para que esta terra aqui pudesse enfim ser mãe para todos seus filhos. Muitos de nos demos o que de melhor tínhamos: nossos dias ! E em algum momento desta história – outros deram mais do que isso – suas vidas. E não fizemos isso para ver o que estamos vendo agora, não fizemos isso para ver o mesmo jogo apenas com as equipes trocando as camisas – tentando assim criar uma sensação ainda maior de ilusão a nossa gente. De tudo, de todas as perguntas, todas as respostas, todas as teorias, todas as possibilidades – resta ainda o mesmo cenário de fundo: GENTE ESPERANDO. Para estas pessoas não importa o que uns entendam que o erro dos outros e sempre grave e os nossos sempre são justificáveis. Para estas pessoas não importam se o mundo das convicções está ao centro, a direita ou a esquerda. Importa poder chegar ao dia seguinte e para isso precisam de mais do que supostas idéias para se manterem. Para estas importa que aqueles que se agarram a convicções procurem no fundo de suas almas as verdades que tiveram um dia e deixem de lado o fascínio do poder pelo poder, do poder que não é útil a não ser para satisfazer apenas coisas que nem de longe chegam ao povo - que usam para justificar suas atitudes. Procurem em suas almas – no fundo delas – ate para que sigam em paz pela vida e um dia possam ir embora deste mundo com um pouco de dignidade – os princípios. Procurem bem as imagens do povo que um dia fez com que tivessem vontade de mudar alguma coisa. Procurem a dignidade. É muito triste apagar biografias. Melhor borra-las, apagar certos pedaços, do que apaga-las. Sou um homem de sorte! Não sou rico, influente, famoso, carismático ou sedutor, mas tenho a honra e a felicidade de conviver com pessoas da estirpe de meu pai e de meu sogro. Aprendi a respeitá-los e admirá-los não pelo que conquistaram ou herdaram de material, mas simplesmente porque não canso de aprender com eles, mesmo que eles não tenham consciência de que estão me ensinando. E não há pessoas mais importantes em nossas vidas do que aquelas que podem nos ensinar algo que nos eleve moral e espiritualmente! Não falo, portanto, da transmissão de "segredos" presunçosos, de tradições vãs e oportunistas, de malícias ou de artimanhas para ter ascendência sobre os outros. Falo de um consciente, contínuo e profícuo aprendizado das coisas que realmente valem na vida. Falo daquilo que trazemos na mente e em nossos atos, e não do que se ostenta ou alardeia como exaltação de si próprio. Com meu pai aprendi a ser honesto, e a viver do fruto do meu trabalho. Com meu sogro aprendi que meu pai não estava sozinho em suas crenças. Com meu pai - um técnico - aprendi a montar e consertar coisas. Com meu sogro – um arquiteto e urbanista - aprendi a entender os mecanismos das cidades. Com meu pai aprendi a respeitar as mulheres. Por perceber isso, meu sogro me deu a mão de sua filha, quando a pedi, à moda antiga. Com meu pai aprendi a dar valor à família. Com meu sogro ela se tornou maior. Com meu pai aprendi a gostar de cinema. Com a filha de meu sogro aprendi que poderia ser protagonista de uma bela, longa e prazerosa história de amor. Assim, sou feliz principalmente por tê-los como amigos, além de parentes. Amigos com os quais posso compartilhar alegrias e preocupações. Amigos que souberam superar as rígidas convenções de tempos de aparências para serem naturalmente bons e sinceros: símbolos radiantes da grandeza do ser humano em suas facetas mais nobres. São pessoas de origem tão distinta, mas de alma tão gêmea; provas vivas de que todos temos a mesma divina origem e, portanto, a mesma fraternidade! Sou, de fato, um homem de muita sorte! Talvez nem mereça tanto... Mas, por isso mesmo, trago comigo uma enorme responsabilidade: a de tentar ser para meu filho um mínimo do que esses dois homens representam para mim. Se eu alcançar esse intento serei, então, além de um homem de sorte, um ser humano plenamente feliz e realizado. Desejo essa mesma sorte e meta para todos os pais, diretos ou indiretos, que fazem da paternidade um instrumento: responsável, amigável e carinhoso para transformar seus filhos, naturais ou não, em seres humanos dignos: legítimos e conscientes filhos de Deus! Adilson Luiz Gonçalves Escritor, Engenheiro e Professor Universitário Mestrando em Educação Autor do livro: "Sobre Almas e Pilhas", Editora: Espaço do Autor http://www.algbr.hpg.com.br algbr@ig.com.br Leia outros artigos do autor na página: http://www.algbr.hpg.com.br/artigos.htm Tels: (13) 97723538 Caso queira que seu e-mail seja removido da lista, basta solicitar. |
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